Architecture of the Body: Functional Recovery of the Shoulder After Severe Trauma Through Traditional Qi Gong and Massage Therapy (article written in Portuguese)

Architecture of the Body: Functional Recovery of the Shoulder After Severe Trauma Through Traditional Qi Gong and Massage Therapy (article written in Portuguese)

Plano de recuperação de uma lesão músculo-esquelética, através da massoterapia e da práctica operativa e filosófica do Qi Gong, inserido no estilo de Kung Fu tradicional Wu Xing Chuan (O Punho dos Cinco Animais).

Recuperação Funcional do Ombro Pós-Trauma Grave Através de Qi Gong Tradicional e Massoterapia

João Tiago Blasques de Oliveira Barroso

ABSTRACT

Este é o segundo artigo de uma investigação a médio/longo prazo.

Pretendo investigar o Qi Gong, com disciplina fundamental da práctica do Kung Fu tradicional, a vários níveis: primeiro e acima dos outros, na dimensão da vitalidade, da força vital, que produz as formas da vida, que existe em nós, fora de nós e no meio; na sua dimensão filosófica e contemplativa; na dimensão de trabalho de harmonização e de florescimento das forças vitais no ser humano; na dimensão técnica, com um compendium dos exercícios tradicionais, sua explicação/propósito e pormenorização dos movimentos, posturas, estados mentais e demais categorias de trabalho; na sua dimensão científica, o que é que a ciência contemporânea diz sobre o Qi Gong; na sua dimensão de semelhança relativamente a outras disciplinas meditativas e respiratórias.

Neste caso em particular, aplicamos um protocolo individualizado baseado na práctica operativa e filosófica do Qi Gong tradicional chinês para recuperação de uma lesão (fractura/luxação/ruptura).

Palavras-chave: Kung Fu; Wu Xing Chuan; Qi; Qi Gong; Qi Gong guerreiro; Shaolin; Wu Wei; Filosofia; Tao; Tao Te Ching; Expressão; Arte; Força vital; Vida; Saúde; Recuperação; Psicossomático; Mente; Corpo; Actividade cerebral; Ondas cerebrais; Frequências das ondas cerebrais (da maior à menor: Gamma, Beta, Alpha, Theta, Delta); Tendão; Músculo-esquelético; Fáscia; Articulação; Fisioterapia Respiratória; Medicina Tradicional Chinesa; Meridianos; Meridianos Tendino-Musculares;

1. OBJECTIVOS E METODOLOGIA

1.1. OBJECTIVOS PRIMÁRIOS

O objectivo principal é a recuperação funcional do ombro esquerdo do paciente, pós trauma grave, através do Qi Gong Tradicional.

Desenvolvemos este objectivo nos seguintes pontos: aumentar a amplitude de movimento, aumentar a capacidade de força dentro das amplitudes de movimento actual e pretendida, (controlo neuro-muscular), eliminar ou reduzir a dor; aumentar a mobilidade funcional (capacidade de execução de movimento) para tarefas motoras diárias e práctica desportiva;

Melhoria da função respiratória.

1.2. OBJECTIVOS SECUNDÁRIOS E LATERAIS

Fortalecer as zonas lesionadas, promover a vitalidade, harmonizar a circulação de Qi, melhoria da qualidade de sono, melhoria da circulação sanguínea, modulação autonómica (sistema nervoso autônomo cardíaco), reeducação neuromuscular, reeducação da fáscia, reeducação do sistema endócrino, melhor coordenação motora.

Filosofia em movimento: vivência dos princípios da filosofia tradicional chinesa, ao nível da construção intelectual e ao nível simbólico, operativo e psicossomático em simultâneo.

Mudança de estado e das frequências das ondas cerebrais.

1.3. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de caso único, com duas fases distintas. A primeira fase consistiu em sessões de massoterapia, a pedido do paciente. Foram aplicadas sessões de 75 minutos de massoterapia, com trabalho do corpo inteiro e maior foco em manobras localizadas para as zonas lesionadas. Esta fase já incluiu algum trabalho respiratório com mobilização lombar e diafragmática e introduziu-se a filosofia chinesa.

Na segunda fase, mais relevante para este estudo, o paciente recebeu um programa de Qi Gong desenhado para a sua condição motora e para os seus objectivos de recuperação. Este programa, ou protocolo, foi fundamentado pela transmissão de cariz tradicional providenciada pelo Sifu Mário Lameiras dentro do Clube de Kung Fu Hong Long (CKFHL) por si fundado.

O protocolo utilizado para a recuperação do paciente foi estruturado com base nos quadros técnico-pedagógicos internos do CKFH, que organizam o corpo da transmissão de Kung Fu tradicional ali praticado, a saber:

1. Eixos Técnicos (ferramentas)

  1. Técnicas de Base
  2. Tao Lu
  3. Armas Tradicionais
  4. Qin Na
  5. Shuai Jiao
  6. Qi Gong
  7. Formação teórica
  8. Filosofia chinesa

2. Factores de Progressão Técnica

3. Organização do Treino

O plano de recuperação focou-se nos seguintes eixos técnicos: Técnicas de base, Qi Gong, Formação Teórica e Filosofia Chinesa.

Uma outra parte fundamental da metodologia deste estudo foi a avaliação regular objectiva e subjectiva da amplitude de movimento de rotação externa do ombro do paciente, da sua mobilidade e capacidade de execução de movimentos no dia-a-dia e a sua progressão na execução e integração dos ensinamentos..

1.4. AVALIAÇÃO DA AMPLITUDE DE MOVIMENTO

Antes e depois de cada sessão, medimos a distância (cm) desde o processo estilóide ulnar (do braço esquerdo do paciente) até ao chão, com o paciente em posição de decúbito dorsal, com o ombro a 90º de abdução. Aqui estamos a avaliar objectivamente a evolução qualitativa e quantitativa do movimento de rotação externa do ombro esquerdo do paciente.

Posição do paciente: decúbito dorsal, ombro a 90° de abdução, cotovelo inicialmente a 90°;

Medida: distância (cm) do processo estilóide ulnar ao chão;

Condições da mobilização:

P (Passivo) – o paciente, em posição de decúbito dorsal com ombro fixo em 90° de abdução e o cotovelo em posição inicial de 90°, deixa cair o braço no sentido da rotação externa do ombro, até à amplitude limite natural da sua articulação e sem aplicar força

A (Ativo) – movimento efectuado pelo esforço muscular do paciente até dor ou limite;

H (Help/Ajuda) – mobilização assistida na totalidade do esforço pelo terapeuta até dor ou limite;

1.5. AVALIAÇÃO IMEDIATA E FEEDBACK DO PACIENTE

Adicionalmente, no final de cada sessão e entre sessões, foi reservado espaço para feedback livre do paciente, permitindo registar sensações subjectivas como: alívio, sensação de leveza, aumento de mobilidade, fadiga localizada, alterações na percepção corporal, outras sensações ligadas ao trabalho do Qi Gong e à percepção do Qi (tal como entendido na práctica tradicional ensinada no CKFHL).

Este feedback qualitativo foi considerado na adaptação progressiva das sessões subsequentes.

2. INTERVENÇÃO (FASE 1: MASSOTERAPIA)

A primeira fase da intervenção consistiu num protocolo estruturado de massoterapia terapêutica integrativa, combinando princípios da massoterapia terapêutica ocidental, quiromassagem, técnicas de libertação miofascial e massagem profunda dos tecidos (deep tissue massage). Esta fase teve como objectivo preparar o sistema músculo-esquelético, fascial e neuromuscular do paciente para a fase subsequente de reeducação activa através do Qi Gong.

2.1. ESTRUTURA GERAL DA INTERVENÇÃO

Foram realizadas seis sessões de massoterapia, com uma frequência de uma sessão por semana, cada uma com duração aproximada de 60 a 75 minutos. As sessões decorreram após o término de um período prolongado de fisioterapia convencional, durante o qual o paciente havia atingido um plateau funcional, particularmente no que respeita à rotação externa do ombro esquerdo.

Cada sessão seguiu uma estrutura tripartida.

Fase inicial – relaxamento global e indução psicossomática

Fase intermédia – intervenção específica na região lesionada

Fase final – integração funcional e normalização

Esta organização visou criar condições óptimas de segurança, eficácia terapêutica e integração neuromuscular.

2.2. FASE INICIAL: RELAXAMENTO GLOBAL E INDUÇÃO RESPIRATÓRIA

A sessão iniciava-se com massagem de corpo inteiro, utilizando técnicas de deslizamento profundo (effleurage profundo) e amassamento (petrissage), com intensidade progressiva e ritmo lento. O objectivo desta fase foi induzir um estado de relaxamento psicossomático global, reduzir o tónus simpático basal e aumentar a receptividade dos tecidos à intervenção localizada subsequente.

Desde o início da sessão, foi integrado um trabalho respiratório guiado, com instruções explícitas ao paciente: inspiração nasal profunda; expansão torácica diafragmática e lombar; expiração longa e controlada;

Este trabalho respiratório foi mantido ao longo de toda a sessão, funcionando como ferramenta de modulação autonómica e de regulação da percepção da dor. Em segundo ponto, este trabalho por si só já introduziu princípios base do Qi Gong, facilitando a integração do posterior protocolo especificamente nele apoiado.

2.3. FASE INTERMÉDIA: INTERVENÇÃO ESPECÍFICA NA REGIÃO DO OMBRO LESIONADO

A fase central da sessão foi dedicada ao tratamento específico da região afectada, incluindo: ombro esquerdo, escápula, braço e antebraço.

Foram utilizadas de forma integrada as seguintes técnicas:

Libertação miofascial, com pressão sustentada e deslizamentos lentos ao longo das cadeias fasciais;

Massagem profunda dos tecidos (deep tissue), direccionada a planos musculares mais profundos;

Quiromassagem, como base técnica, com adaptação contínua da pressão à resposta tecidular;

Mobilização passiva suave do ombro, respeitando os limites de dor referidos pelo paciente;

Trabalho de braço, antebraço, ombro e peri-escapular específico, incidindo sobre musculatura estabilizadora da escápula, ombro e braço esquerdos;

Tapotagem, aplicada de forma controlada e selectiva, com objectivo de estimulação neuromuscular e melhoria da vascularização local.

Apesar da presença de tecido previamente intervencionado cirurgicamente, não foram evitadas as zonas de inserção músculo-tendinosa ou áreas adjacentes à região cirúrgica, por indicação da especialista em fisioterapia que acompanhara previamente o paciente. No entanto, estas foram abordadas com cuidado extremo e vigilância clínica reforçada, ajustando continuamente intensidade, profundidade e duração da intervenção com base: no feedback verbal do paciente, na resposta dos tecidos à palpação, na avaliação dinâmica durante a mobilização.

A dor referida pelo paciente, bem como sinais de resistência tecidular excessiva, foram sempre utilizados como limites funcionais da intervenção.

2.4. INTEGRAÇÃO DA RESPIRAÇÃO DURANTE O TRABALHO LOCAL

Durante o trabalho específico da zona lesionada, a intervenção manual foi explicitamente coordenada com o ciclo respiratório do paciente. As fases de maior pressão e alongamento tecidular foram sincronizadas com a expiração, enquanto as fases de libertação coincidiram com a inspiração, de forma a: facilitar o relaxamento reflexo, reduzir a resposta defensiva muscular, melhorar a tolerância à mobilização passiva e activa, implementar as bases do Qi Gong para a saúde.

Esta coordenação visou optimizar a resposta neuromuscular e promover uma maior consciência corporal do movimento e das sensações associadas.

2.5. OBJECTIVOS TERAPÊUTICOS DA FASE DE MASSOTERAPIA

Os objectivos específicos desta fase incluíram: redução do tónus muscular defensivo; melhoria da mobilidade fascial e da extensibilidade dos tecidos; diminuição de processos inflamatórios residuais; redução da hipervigilância somática associada à dor crónica; preparação neuromuscular para movimento activo e reeducação funcional; facilitação da mobilização articular do ombro, particularmente na rotação externa.

Estes objectivos enquadram-se nos modelos contemporâneos de reabilitação músculo-esquelética, que reconhecem a importância da interacção entre tecidos, sistema nervoso e factores psicossomáticos.

3. INTERVENÇÃO (FASE 2: QI GONG)

3.1. ENQUADRAMENTO GERAL DA INTERVENÇÃO

A segunda fase da intervenção consistiu num programa estruturado de Qi Gong tradicional – tal como transmitido ao instrutor dentro do estilo de Kung Fu tradicional Wu Xing Chuan – com duração aproximada de seis semanas, decorrendo de forma contínua entre 08/09/2025 e 22/10/2025. Esta fase foi implementada após a conclusão do ciclo de massoterapia, num momento em que se observava já redução do tónus defensivo e melhoria da mobilidade passiva, mas persistiam limitações na mobilidade activa, no controlo neuromuscular e na confiança funcional do membro superior esquerdo.

O Qi Gong foi utilizado como intervenção activa, educativa e também auto-regulada, com objectivos de consolidação e aprofundamento dos ganhos obtidos na fase anterior, bem como de integração funcional do ombro no movimento global e saudável do corpo. O protocolo foi exclusivamente baseado em exercícios de Qi Gong para a saúde tradicionais, nomeadamente a Baduanjin (As Oito Peças do Brocado) e os 10 Movimentos de Shaolin, complementados por exercícios de Qi Gong Guerreiro.

Do ponto de vista científico ocidental, esta fase foi enquadrada como um processo de reeducação neuromuscular, proprioceptiva e respiratória, com potencial impacto na neuroplasticidade motora, no controlo postural e na modulação autonómica.

3.2. OBJECTIVOS TERAPÊUTICOS ESPECÍFICOS DA FASE DE QI GONG

Os objectivos desta fase incluíram:

  • Aumento da amplitude de movimento activa e passiva do ombro esquerdo,
  • Reeducação neuromuscular e proprioceptiva,
  • Integração respiração-movimento,
  • Redução do medo de movimento e da inibição protectora,
  • Consolidação dos ganhos obtidos com massoterapia,
  • Aprendizagem da harmonização emocional através da práctica do Qi Gong,
  • Promoção do equilíbrio psicossomático,
  • Aumento da consciência respiratória e da compreensão da influência recíproca entre respiração, movimento e estados psicológicos internos

3.3. ESTRUTURA DAS SESSÕES GUIADAS

Foram realizadas seis sessões guiadas presenciais, com periodicidade semanal e duração aproximada de 75 minutos, estruturadas da seguinte forma:

Aquecimento articular e mobilização inicial: aproximadamente 10 minutos

Trabalho respiratório e indução de estado psicossomático: aproximadamente 10 minutos

Práctica de Qi Gong com aprendizagem técnica progressiva: aproximadamente 45 minutos

Integração final, normalização e esclarecimento de questões: aproximadamente 10 minutos

Importa salientar que tanto o aquecimento articular como o trabalho respiratório inicial foram considerados parte integrante do treino de Qi Gong, sendo executados com atenção plena, coordenação respiratória e intenção terapêutica.

3.4. PRINCÍPIOS DE PROGRESSÃO E ADAPTAÇÃO CLÍNICA

A progressão do programa foi sequencial e adaptativa. Por um lado, respeitou a sequência definida no protocolo desenhado; por outro, foi continuamente ajustada à resposta clínica do paciente, ao nível da dor, da qualidade do movimento e da fadiga.

Determinados exercícios foram temporariamente removidos ou modificados quando surgia desconforto excessivo, nomeadamente: flexões regulares, flexões com mobilização isolada de cada ombro, movimento de Qi Gong associado ao Triplo Aquecedor, movimento do Arqueiro da Baduanjin, movimentos de Qi Gong que envolvam pronação e supinação até ao limite; alguns exercícios de Qi Gong Guerreiro.

O protocolo respeitou o princípio de não trabalhar em dor aguda ou intensa. Foram aceites níveis ligeiros a moderados de desconforto, particularmente em exercícios com contracção muscular activa, desde que não ultrapassassem um limiar considerado seguro pelo paciente e pelo instrutor.

Estas adaptações permitiram manter a continuidade da prática sem induzir dor aguda ou padrões compensatórios indesejáveis.

3.5. INTEGRAÇÃO PROGRESSIVA DA RESPIRAÇÃO, ATENÇÃO E CONSCIÊNCIA CORPORAL

A intervenção incorporou um modelo pedagógico em fases, com foco progressivo em diferentes dimensões da prática:

  1. Respiração correcta: ênfase inicial na mobilização torácica, lombar e diafragmática, promovendo expansão e controlo respiratório; aprendizagem de como a fisiologia, diferentes posturas corporais alteram a capacidade respiratória do indivíduo.
  2. Aprendizagem técnica e postural: memorização dos movimentos, correcções posturais e cinéticas finas.
  3. Qualidade e fluidez do movimento: desenvolvimento da continuidade e fluidez dos movimentos, da coordenação global cinético-respiratória, da propriocepção e do trabalho de relaxamento geral do corpo (que incluiu também relaxamento e contracção de zonas específicas).
  4. Consciência do Qi: observação das sensações associadas ao trabalho e à mobilização do Qi, com direccionamento do foco mental para zonas específicas do corpo.
  5. Wu Wei e meditação em movimento: execução dos movimentos com mínimo esforço consciente, fluidez espontânea e integração mente-corpo durante a práctica em estado alterado de consciência.

Foram utilizadas instruções verbais específicas para cada fase, orientadas para relaxamento, fluidez, descontracção segmentar e global, e harmonização emocional.

3.6. PRÁTICA AUTÓNOMA DIÁRIA E SEMANAL

Para além das 6 sessões planeadas de Qi Gong – aulas presenciais, foi desenhado um protocolo de prática autónoma altamente adaptado às rotinas quotidianas do paciente, que trabalha remotamente em casa. O terapeuta acompanhou presencialmente um dia completo da rotina do paciente, analisando posturas habituais, padrões de movimento e cristalização postural conscientes e inconscientes, e períodos prolongados de sedentarismo (típicos de quem trabalha primariamente com o computador numa postura sentada com os braços apoiados numa secretária).

O programa foi organizado em blocos logísticos: manhã, durante o trabalho e pós-trabalho (conforme descrito detalhadamente no protocolo fornecido mais baixo, como apêndice). A prática incluiu: activações respiratórias ao acordar, pausas frequentes para mobilização ao longo do dia, uma sequência completa de Qi Gong ao final do dia.

3.7. EXERCÍCIOS DE QI GONG UTILIZADOS

Foram utilizados exclusivamente os exercícios mencionados no protocolo. Exercícios de Qi Gong para a saúde: Baduanjin (“As Oito Peças do Brocado”), os 10 Movimentos de Shaolin, outros movimentos de base; movimentos de Qi Gong Guerreiro; adaptação dos princípios de coordenação respiratória e do foco pleno do Qi Gong a outros exercícios análogos (como flexões e corrida); o protocolo completo está inserido nos apêndices (Ver: 7-Apêndices).

Cada grupo de exercícios foi descrito e ensinado com base na sua função biomecânica, nomeadamente a integração do corpo todo no movimento, a mobilização isolada de zonas específicas, nomeadamente a escapulo-umeral, equilíbrio, fluidez, coordenação respiratória e fortalecimento fascial e tendino-muscular progressivo.

4. RESULTADOS

4.1. VISÃO GERAL DOS RESULTADOS

Os resultados apresentados nesta secção integram dados quantitativos objectivos (medições repetidas da rotação externa do ombro esquerdo) e dados qualitativos clínicos (observação terapêutica sistemática e feedback subjectivo do paciente). Esta abordagem mista permite correlacionar alterações mensuráveis com mudanças funcionais e psicossomáticas relevantes.

A variável principal analisada foi a amplitude de rotação externa do ombro esquerdo, avaliada através da distância (em centímetros) entre o processo estilóide ulnar e o solo, com o paciente em posição padronizada de decúbito dorsal, com o ombro a 90° de abdução e o cotovelo inicialmente a 90°, em três condições distintas: Passiva (P), Activa (A), Assistida (H).

As medições foram efectuadas imediatamente antes e imediatamente após cada sessão de massoterapia ou Qi Gong, permitindo avaliar efeitos agudos intra-sessão e evolução ao longo do protocolo.

4.2. EVOLUÇÃO QUANTITATIVA DA ROTAÇÃO EXTERNA DO OMBRO
4.2.1. CONDIÇÃO ASSISTIDA (H)

A condição assistida (H) revelou-se a mais sensível para detectar alterações estruturais e funcionais progressivas, uma vez que minimiza a limitação imposta pela força activa.

Observou-se uma redução progressiva, consistente e clinicamente relevante da distância medida, culminando em alcance funcional completo (0 cm) nas medições pós-sessão realizadas em Outubro de 2025.

Resumo da evolução (condição H):

  • Valor inicial registado: 11,0 cm
  • Valor final pós-intervenção: 0,0 cm
  • Redução total observada: 11,0 cm

Tendência temporal: melhoria gradual, com aceleração após início da fase de Qi Gong

Esta evolução sugere uma recuperação quase completa da rotação externa do ombro esquerdo assistida, compatível com normalização funcional do movimento dentro dos limites articulares avaliados.

4.2.2. CONDIÇÃO PASSIVA (P)

Na condição passiva (P), os resultados mostraram uma evolução mais variável, com oscilações intermédias, mas com tendência global para melhoria ao longo do protocolo.

Estas flutuações são interpretáveis à luz de factores como: estado inflamatório residual, variabilidade do tónus muscular, diferenças no estado psicofisiológico diário do paciente.

Apesar dessa variabilidade, a comparação entre os valores iniciais e finais indica ganho de amplitude passiva, sugerindo melhoria da mobilidade capsular e fascial.

4.2.3. CONDIÇÃO ACTIVA (A)

Na condição activa (A), observou-se: melhoria progressiva da amplitude alcançada sem assistência; redução progressiva da discrepância entre as condições activa e assistida; aumento da capacidade do paciente para aplicar força dentro da amplitude disponível.

Estes resultados indicam não apenas ganhos de mobilidade, mas também melhoria do controlo neuromuscular, confiança motora e integração funcional do movimento, aspectos centrais na reabilitação pós-cirúrgica do ombro.

4.3. ANÁLISE DESCRITIVA INTRA-SESSÃO

A comparação sistemática entre medições pré e pós-sessão revelou que a maioria das sessões produziu ganhos imediatos mensuráveis, particularmente evidentes: após sessões de massoterapia, na fase inicial do protocolo; e após sessões de Qi Gong, sobretudo na condição assistida.

Mostrou também que estes ganhos intra-sessão foram, em grande parte, mantidos ou aprofundados nas sessões subsequentes, sugerindo ausência de regressão significativa.

Do ponto de vista clínico, este padrão é compatível com:

  • Redução progressiva de restrições miofasciais,
  • Diminuição da inibição neuromuscular reflexa,
  • Aumento da tolerância ao movimento.

4.4. OBSERVAÇÕES CLÍNICAS QUALITATIVAS

Para além dos dados métricos, foram registadas observações clínicas consistentes ao longo de todo o protocolo, tanto pelo terapeuta como pelo próprio paciente.

4.4.1. MOBILIDADE E FUNÇÃO

O paciente relatou e demonstrou:

  • Melhoria semanal e regular da mobilidade do ombro e braço esquerdo;
  • Maior facilidade em executar movimentos do quotidiano acima do nível do ombro;
  • Aumento progressivo da capacidade de aplicação de força sem dor limitante.

4.4.2. CONFORTO POSTURAL E REPOUSO

Foram observadas melhorias claras em:

  • Conforto em posições prolongadas (por exemplo, posições de trabalho prolongadas ao computador; ou no sofá durante a visualização prolongada de um filme).
  • Adaptação postural inconsciente em repouso;
  • Qualidade do sono, com diminuição de desconforto nocturno no ombro afectado.

Estas alterações sugerem integração funcional do ganho motor em contextos não terapêuticos, um indicador relevante de eficácia do protocolo.

4.4.3. PERCEPÇÃO CORPORAL E CONTROLO VOLUNTÁRIO

Durante a fase de Qi Gong, o paciente relatou:

  • Aumento da consciência corporal e proprioceptiva;
  • Maior capacidade de identificar e libertar tensões excessivas;
  • Sensação de maior controlo voluntário e fluidez nos movimentos do ombro.

Estes aspectos, embora de natureza subjectiva, são clinicamente relevantes e coerentes com os objectivos da intervenção.

4.5. SEGURANÇA E EVENTOS ADVERSOS

Ao longo de todo o protocolo: não foram registados eventos adversos; não se observaram exacerbações agudas de dor; não houve necessidade de interrupção definitiva de qualquer sessão.

Os ajustes realizados (remoção temporária ou modificação de exercícios) mostraram-se eficazes na prevenção de sobrecarga e na manutenção da adesão ao programa.

4.6. SÍNTESE DOS RESULTADOS

Em síntese, os resultados indicam que houve melhoria objectiva significativa da rotação externa do ombro esquerdo, sobretudo na condição assistida.

Verificou-se transferência funcional dos ganhos para o movimento activo e para o quotidiano; e que a intervenção foi bem tolerada, segura e associada a elevada adesão.

Os dados quantitativos e qualitativos apresentam coerência interna, reforçando a plausibilidade clínica dos efeitos observados.

Estes resultados fornecem uma base sólida para a interpretação e discussão dos mecanismos subjacentes, desenvolvidos na secção seguinte do artigo.

5. DISCUSSÃO, LIMITAÇÕES E CONCLUSÃO

5.1. LIMITAÇÕES DO ESTUDO

Apesar dos resultados, este estudo apresenta várias limitações que devem ser reconhecidas:

  • Desenho de estudo de caso único, o que limita a generalização dos resultados.
  • Ausência de escalas padronizadas de dor, função e avaliação da mobilidade, que teria permitido uma quantificação mais robusta dos ganhos funcionais.
  • Dados clínicos incompletos da fase cirúrgica e da fisioterapia prévia, incluindo ausência de relatório cirúrgico detalhado, o que dificulta a caracterização exacta da lesão.
  • Perda de alguns dados de medição iniciais, impedindo análises estatísticas mais completas.
  • Impossibilidade de isolar completamente os efeitos do Qi Gong dos efeitos residuais da massoterapia e da evolução natural do processo de recuperação.

5.2. INTERPRETAÇÃO GLOBAL DOS RESULTADOS

O presente estudo de caso descreve a recuperação funcional progressiva de um paciente adulto com lesão grave do ombro esquerdo, após trauma de alta energia, cirurgia reconstrutiva e um longo período de fisioterapia convencional, através de uma intervenção integrada composta por massoterapia terapêutica seguida de um programa estruturado de Qi Gong tradicional. Os resultados obtidos sugerem que esta abordagem contribuiu para ganhos adicionais clinicamente relevantes, sobretudo ao nível da rotação externa do ombro, da integração funcional do movimento e do conforto psicossomático global.

Um aspecto central a destacar é o facto de a intervenção ter sido introduzida num contexto de plateau funcional, isto é, após aproximadamente um ano de fisioterapia, período durante o qual persistiam limitações relevantes da amplitude de movimento e da função. A melhoria progressiva observada durante e após a introdução do Qi Gong (ou outras prácticas com fundações semelhantes) reforça a hipótese de que esta disciplina tradicional, tal como transmitida e estruturada dentro do corpo de ensino do Wu Xing Chuan, pode actuar como catalisadora de reorganização funcional e integrativa, mesmo em fases tardias da reabilitação.

5.3. INTEGRAÇÃO NO QUOTIDIANO E ADESÃO TERAPÊUTICA

Um aspecto particularmente relevante foi a adaptação do programa às rotinas reais do paciente, incluindo observação directa dos seus hábitos durante um dia normal de trabalho remoto, de onde se extrapolaram hábitos e cristalizações fisiológicas mais profundas. Esta personalização parece ter sido determinante para a adesão positiva e significativa a este programa que exigia prática diária autónoma.

A integração do Qi Gong em pequenos blocos ao longo do dia, para além de uma sessão mais estruturada no período pós-trabalho, pode ter facilitado a transferência dos ganhos terapêuticos para o contexto funcional real e efectivo na vivencia diária, objectivo fundamental deste protocolo, reforçando a consolidação das adaptações neuromotoras.

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INSPIRAÇÕES

Regra de treino de Kung Fu nº 10: “Segue os princípios do Tao”

“The Dao is eternally without action yet there is nothing it does not achieve”

Tao Te Ching, chapter 37

O Qi Gong é uma Mimesis do fenómeno vital.

“The Spirit of the Valley is the sacred feminine principle,

Its gateway is the root of the Cosmos

Like an unbroken silk thread, it is inexhaustible.”

Tao Te Ching, Chapter 6

“There is something born of chaos

Created before Heaven and Earth

Voiceless

Formless

It stands alone, unchanging

Ceaselessly circling

The Mother of Creation

I do not know its name

But conscious of my temerity, I call it the Dao”

Tao Te Ching, chapter 25

O Qi é a essência da vida.

E a toda a nossa vida é um grande exercício de Qi Gong.